21/03/2021
A reprodução dos pássaros em cativeiro já foi um desafio em si. Era muito difícil conseguir que aprontassem, que copulassem, que cuidassem dos filhotes. Criadores com aguçadíssimo poder de observação, como o Sr. Marcílio Leonardo Picinini, abriram as portas para que hoje nós tivéssemos todas as facilidades das quais ainda ousamos reclamar... Gaiolas individuais para machos e fêmeas que só se reuniam para o ato da cópula, farinhada caseira com milharina, larvas de tenébrio dormidas no leite em pó, buchas prensadas manualmente para formatar ninhos, papa servida com auxílio de uma seringa rústica... Era tudo uma ciência nova. E o Sr. Marcílio foi o grande precursor do estilo de criação que conhecemos hoje.
A questão que se apresenta como o próximo desafio é a análise da compatibilidade genética entre macho e fêmea, de forma que os produtos do cruzamento entre aquele pai e aquela mãe tragam alguma previsibilidade racionalmente homogênea, evitando picos de alta e baixa qualidade entre irmãos próprios. Mas esse é tema pra outra oportunidade!
Antes, é importante compreender um sentido mais elementar dos cruzamentos. É sabido que cruzamentos podem ser realizados através de dois métodos muito difundidos: o exogâmico, no qual se cruza pássaros que não são parentes entre si; e o endogâmico, que utiliza pássaros com algum grau de parentesco entre si. O método endogâmico ainda se subdivide em linhas verticais, horizontais ou transversais, conforme o grau de parestesco utilizado pelo criador.
Lembrando, também, que o filhote é sempre metade exata do material genético nuclear do pai com metade exata do material genético nuclear da mãe. Meio a meio! A questão mitocondrial é não nuclear, é outro assunto e não cabe aqui nesse texto.
Independente do método escolhido pelo criador – e aqui quero registrar que discordo veementemente de quem diz que um seja certo e o outro errado – é preciso atentar para a composição genética dos pássaros que vai utilizar.
A literatura especializada é farta em informar que, em aves, cujo genoma é mais simplificado que nos mamíferos, se pode obter um pássaro puro por cruzamento com o produto F4. Cumpre ilustrar, F1 é filho (50% do sangue daquele padreador), F2 é filho e neto (75% do sangue daquele padreador), F3 é filho, neto e bisneto (87,5% do sangue daquele padreador), e F4 é filho, neto, bisneto e trineto (93,75% do sangue daquele padreador). Ora, se o F4, que tem 93,75% é considerado puro por cruza, precisamos ter clara a conclusão residual de que uma coisa é pura quando não contém mistura alguma, ou seja, aqueles 6,25% que restaram do F4 já seriam geneticamente irrelevantes, um zero!
Então, quando se pretende montar um casal para reunir duas linhagens genéticas (exogamia) ou mesmo preservar uma (endogamia), temos que ter bem claro que um pássaro que possua 12,5% de densidade de uma determinada linhagem, vai transmitir 6,25%, ou seja, na prática não vai transmitir aquela linhagem mais à sua prole, porque esse residual de 6,25% é geneticamente irrelevante!
Assim, se o criador escolhe um macho que possua 12,5% de sangue Sobe e Desce para cruzar numa fêmea que possua 50% de sangue Paraiso, o filhote terá 25% de sangue Paraiso e nada de sangue Sobe e Desce. É preciso, portanto, estar atento para a densidade de linhagem que o pássaro contém! Que ele ainda possua concentração que o permita ser capaz de transmitir.
Assim, para realizar a exogamia anteriormente mencionada e garantir que o produto da cruza contenha a mistura desejada, será necessário que o macho em questão tenha mais que os 12,5% da linhagem Sobe e Desce do exemplo...
Ainda no exemplo anterior, agora noutra vertente, para que se preserve algo da linhagem Sobe e Desce da composição genética daquele macho, será preciso encontrar uma fêmea com pelo menos iguais 12,5% de densidade da mesma linhagem e promover um cruzamento endogâmico, que por sua vez irá gerar filhotes com iguais 12,5% de densidade daquela linhagem.
Por derradeiro, e talvez mero preciosismo, é importante estar atento a outra questão: o pássaro SER de determinada linhagem ou o pássaro TER determinada linhagem.
Com a devida permissão, tenho uma compreensão particular sobre o tema. Entendo que o pássaro SEJA de determinada linhagem quando ela é a dominante na composição dele, que nenhuma outra linhagem genética que contenha seja superior àquela dominante. Nesse caso, eu entendo que ele SEJA de tal linhagem. Já a concepção do pássaro TER determinada linhagem já prescinde dela ser dominante nele, bastando que ainda seja geneticamente relevante, ou seja, superior a 6,25%. O pássaro pode não ser, pode ter e pode nem transmitir!
Um exemplo interessante é o falecido bicudo Minotauro, criado pelo Dr. Ailton Milward de Azevedo, de Niterói, ascendente de vários bicudos campeões de torneios. Minotauro era filho de Peão Filho - P1 com Canela. Minotauro tinha, assim, 12,5% de sangue Sobe e Desce e 25% de sangue Jequitibá. Todos sempre o trataram como um exemplar da linhagem Sobe e Desce. Na minha concepção, um equívoco! Minotauro era, na verdade, linhagem Jequitibá, tinha a linhagem Sobe e Desce, mas já nem era capaz de transmití-la adiante! Exceto pela endogamia...
Rodrigo Araujo
Gov. Valadares/MG