26/09/2020
Quando comecei a criar bicudos ouvi muitas “regras” dos criadores mais antigos, e, uma delas, foi que a paternidade da ninhada é sempre do primeiro macho que copula com a fêmea. Lógico que sempre ressalvaram que a “exceção” seria na hipótese do referido macho não estar apto a gerar ou não ter copulado corretamente.
Em cachorros e mamíferos em geral, já haviam diversas notícias e artigos atestando a pluralidade paterna nas crias. Até em humanos a biologia mais simplória já registrava que, excepcionalmente no caso de gêmeos bivitelinos (dois óvulos), poderia haver pluralidade paterna. Em aves, haviam registros em galinhas, diamantes gold, periquitos etc, mas ainda não tinha lido nada sobre o assunto em bicudos, até porque essa espécie costuma botar apenas dois ovos.
Cabe registrar que não há nada mais “bivitelino” do que uma fêmea de bicudo botar dois ovos... Mas só com a massificação dos exames de DNA veio a prova cabal: é frequente a pluralidade paterna em caso de poligamia em bicudos!
Já tive acesso a diversos casos de colegas criadores que registraram em suas anotações a realização de cruzamentos de mais de um macho na mesma fêmea durante o ciclo copulatório. Há registros de três machos diferentes, usados para “garantir” o aproveitamento dos ovos.
Em vários casos já registrados por laudos de DNA, apurou-se que cada filhote era filho de um pai diferente, tenham eles copulado com a fêmea no mesmo dia ou em dias subsequentes.
Além da derrocada da “regra” da paternidade atribuída ao primeiro macho que copulou, o tema suscita novas curiosidades, tais como: Por que não ocorre a pluralidade paterna em todo caso de poligamia? Por que o esperma do primeiro macho, que “chegou na frente”, não fecundou também o segundo ovo? Por que o filhote é do macho que cruzou uma semana antes e não do que cruzou mais próximo à postura?
Com efeito, já pude observar casos de ovos perfeitamente fertilizados que foram botados no mínimo de 36h e no máximo até 8 dias após a cópula. E isso torna mais instigantes as questões acima propostas; questões essas que nos remetem à teoria da competição espermática e ao poder da fêmea de “escolher”.
Uma simples pesquisa no google pode explicar com bastante propriedade o que é a teoria da competição espermática que, em poucas palavras, tem sentido literal e está diretamente ligada à teoria da seleção natural. Mas qual o poder de interferência da fêmea para “arbitrar” essa competição?
Convém aqui fazer um parêntese para relembrar um estudo feito com pavões, onde cruzaram um pavão com plumagem esplendorosa e bastante sedutor com uma fêmea e isso resultou em uma ninhada com mais filhotes machos; enquanto o mesmo experimento, usando agora um pavão com plumagem mutilada, que não interessou tanto à fêmea, e acabou produzindo mais filhotes fêmeas.
Em síntese, a conclusão desse estudo foi no sentido de que, se a fêmea gostar do macho, ela tende a produzir mais filhotes machos; e se não gostar, tende a produzir mais filhotes fêmeas, talvez para se “livrar” daquele... Há, neste estudo, uma clara conclusão sobre a influência na fêmea na decisão do sexo da ninhada. Vale dizer, em aves, as fêmeas não definem o sexo da prole aleatoriamente, elas têm real poder decisório!
Partindo dessa premissa, considerando ainda que os espermatozóides permanecem vivos por até oito dias no aparelho reprodutivo da fêmea, tudo isso à luz da teoria da competição espermática, não é inconveniente supor que a fêmea também possa definir, de forma proativa, não apenas o sexo da prole mas também a escolha do esperma que irá fecundar o ovo. Isso explicaria a razão de não haver pluralidade paterna em todos os casos de poligamia.
Rodrigo C S Araújo
Gov. Valadares/MG