“O RAÇADOR” - UMA SINGELA REFLEXÃO

PRISMA DA DOMINÂNCIA, DE CARACTERES POLIGÊNICOS, DO DNA MITOCONDRIAL E DA TEORIA DO AVÔ MATERNO

26/09/2020

Muito  se  comenta  sobre  este  ou  aquele passarinho ser “raçador”, ou seja, fazer prevalecer suas qualidades facilmente na prole, independentemente da fêmea-mãe. A expressão nunca me agradou porque, em tese, o filhote é, a princípio e via de regra, o produto da fusão de metade do material genético paterno com metade do material genético materno.

 


Pode-se argumentar que o “raçador” sempre transferiria seu gene “dominante” e por isso mereceria o “título” que lhe atribuem. Em tese, isso seria até possível se, conjuntamente:

 


a) Considerando que ele transmite apenas um alelo em cada locus nesse grupo de genes ligados a essa tal característica, fosse o intitulado “raçador” portador de homozigoze em todos aqueles locus; e,

 


b) considerando  que  a  fêmea-mãe  é  “irrelevante”,  temos  que consolidar a  hipótese  de  que  a  característica  funcione em homozigoze e/ou em heterozigoze nos filhotes (!?)

 


Assim  sendo,  a  ideia  de  que  determinado reprodutor sempre impõe suas qualidades à prole, independente da intervenção da fêmea-mãe, conduz ao raciocínio de que em todas as vezes  ele transmite  exatamente  aquela  determinada  combinação perfeita de alelos e em dominância.

 

 

Observem, portanto, que já são muitos fatores condicionantes  para se  admitir  a  existência  desse ser  “raçador”. Quase o equivalente a uma mesma combinação de seis números ser sorteada dez vezes consecutivas na mega-sena...

 


Com   efeito,   algumas   características   do indivíduo são definidas pela combinação de apenas um par de genes e,  nessa classe, eles interagem  de  forma  “simples”, como  gene dominante e gene recessivo. Por exemplo, sabemos que em canários de cor, quando o macho possui olhos vermelhos (vv) e a fêmea apresenta olhos pretos, mas é portadora do fator vermelho (Pv), metade da prole nascerá com olhos vermelhos e a outra metade com olhos pretos, mas portadores do fator vermelho. E mais: todos os filhotes de olhos vermelhos, serão fêmeas!

 


Destaco, desde já, que além da transmissão da característica ligada ao fenótipo (cor dos olhos), há uma questão sexual envolvida, pois já se sabe, de antemão, o sexo do filhote pela cor  do  olho... Neste  exemplo,  o  macho  com  determinada característica vai produzir aquela característica somente nos filhotes fêmeas.

 


Lado  outro,  há  características  que  sofrem influência de muitos pares de genes. São os caracteres poligênicos. A produtividade, a postura, o crescimento, o tamanho corporal, a fertilidade  e  até  a  capacidade  de  adaptação  são  exemplos  de caracteres poligênicos.

 

 

Então, algumas características dos filhotes de bicudos podem decorrer de apenas um par de genes, e outras, como certamente a fibra – que é um conjunto de qualidades complexas, decorrem de um combinado de muitos pares.

 

 

Entretanto, há mais um complicador para a hipótese  de  reconhecimento  de  existência de  “raçador”:  o  DNA mitocondrial, que é objeto de intenso estudo no mundo inteiro. A mitocôndria é uma organela presente no citoplasma das células e é responsável  por  processar  oxigênio  e  glicose  – combinação fundamental para geração de energia – e ela (mitocôndria) possui um DNA próprio.

 

 

Na grande maioria dos animais, apenas o DNA mitocondrial materno é passado de geração para geração, sendo que o  DNA  mitocondrial  paterno  nunca  será encontrado  em  nossas células, porque é destruído na fusão dos gametas por força de uma reação enzimática que acaba por garantir a viabilidade do embrião.

 


Então, estamos diante de uma cadeia de DNA além da “principal”, não nuclear, que só é transmitida pelas fêmeas e que tem a função de gerar energia para as células de um animal, cuja característica que nos interessa aqui – fibra – decorre de herança poligênica!

 

 

Até aqui, me parece que, se há um “raçador”, a  denominação  está  equivocada;  ao  menos  em  gênero,  pois mereceria ser a fêmea a detentora deste “título”.

 

 

Mas outro complicador ao reconhecimento do termo  “raçador”  emerge:  a  teoria  do  avô  materno!  Essa  teoria apareceu  em  um  artigo  da  Revista  Equs, em  1977,  que  trouxe documentação de evidência científica que a embasou, e também foi objeto de artigo do Dr. Jorge E. Santoianni, na Dobermann Express 3/2000.

 


Em apertada síntese, destaca o autor que um famoso cavalo campeão de corridas deixou vários descendentes, mas nenhum obteve resultados dignos de registro. Contudo, seus netos, filhos de suas filhas, recuperaram o prestígio da linhagem vencendo várias corridas.

 

 

O artigo destaca que “certas características saltam uma geração e eram passadas só através das fêmeas”! E aqui, relembro o exemplo sobre fenótipo (cor dos olhos) em canários de cor, acima citado, embora não esteja mais me referindo a caracteres visualizáveis.

 


Diante de todo o exposto, persisto na aversão ao termo “raçador”, mas saliento que estou cada vez mais fascinado pelos mistérios que ainda envolvem a “responsabilidade” das fêmeas- mães nos caracteres da prole em bicudos de fibra.

 

 

Rodrigo C S Araújo
Gov. Valadares/MG

 

Abrir conversa no WhatsApp com Criadouro+Ara%C3%A7%C3%A1

www.criadouroaraca.com.br - 2026 - Desenvolvimento: Fênix Sites